Café Gato-Mourisco? Apenas fora das timelines.

A Café Gato-Mourisco é a marca do Sítio Córrego da Anta e e ainda passa pela organização de sua estrutura de vendas. Começamos em 2021 com a proposta de promover os frutos colhidos na propriedade Sítio Córrego da Anta através do processamento dos alimentos e venda deles pelo comércio direto ao cliente final interessado em produtos de qualidade e origem geográfica conhecida.

No primeiro ano da marca aprendemos o básico como desenvolver o café torrado enquanto produto comercial. Utilizamos desde o início o Instagram como plataforma de rede social para promover a venda dos cafés. aqui falo “Eu”, Pedro Lotti C. Dias, promotor deste empreendimento. Durante 2021 eu me guiei por este caminho, muito trilhado por operadores de e-commerce, estando eu permanentemente contrariado por ter ressalva ética com as timelines das redes sociais. É de conhecimento comum hoje que a forma da rede social privilegia a função comercial por ação de seus códigos computacionais, que, diga-se aqui, são misteriosos em seu funcionamento para um leigo em computação.

Estamos agora em 2024 e passado estes anos eu deixei de ser um usuário do Instagram. O pensamento que reflito sobre esta experiência é de ter sido integrante de um experimento coletivo da engenharia social, tal como “consumidor/operário digital” de uma comunidade de voluntários que diariamente colaboram para consumir e gerar conteúdo para a giga teia de relações entre avatares, que é, resumidamente, o edifício material das redes sociais.

Aqui estamos tratando de um ambiente comunitário que não está sustentada pela ideia da comunidade de pessoas. O logos da rede social de tipo timeline é o discurso publicitário que te encontra na “rolagem infinita” e seu agon é a contaminação do discurso publicitário sobre as relações de trocas entre avatares.

Aqui, faço a ressalva de excluir da crítica a tecnologia do avatar/rede social, que juntos formam mecânismo básico da internet para a relação livre e comunitária entre as pessoas, e que evoluiu no começo dos anos 2000, na era dos blogs pessoais.

Voltando para a timeline, decidimos desligar a marca Café Gato-Mourisco do Instagram, em 2023. Após eu escutar o argumento vindo de pessoas diversas entre si, sobre ser impeditivo a um pequeno negócio o gesto de “sair do Instagram”, eu num primeiro momento decidi permanecer na rede social como consequência lógica de quem escutou os mais eloquentes sobre o assunto. Foi assim que entre 2021 e 2023 esteve presente no Instagram o perfil Café Gato-Mourisco, onde produzi conteúdo e busquei arquitetar um estilismo para a identidade da marca do Sítio Córrego da Anta. Neste tempo em que estive dentro da rede eu vim observando outras marcas, que eu considerava estarem fazendo campanhas publicitárias bonitas dentro da operação da rede social e da temática produtos “direto do campo”. Notei similitudes entre as campanhas mais atraentes: vende-se o estilo de vida do produtor; o conceito de bom-gosto subentendido na relação emoldurável das imagens promovidas na rede; vincula-se a narrativa do produtor conceitos empresariais de uma “produção ética”. Tudo, por fim, o que engloba exposição da vida pessoal e do produto comercial, operam na mesma linguagem do slogans.

Durante a minha participação das redes sociais como usuário de envergadura modesta – com apenas aproximadamente 400 seguidores – percebi aos poucos que o produto tinha deixado de ser o objeto da venda, que o agon do comércio no Instagram havia deslocado para outro lugar, mais pixelado, mais espiritual, ainda que de uma espiritualidade controversa, emergida na organicidade das redes sociais, em que os produtos a venda estão colocados lado a lado com a vida pessoal dos amigos pela arquitetura da timeline. Esta relação propositadamente confusa entre perfil privado de usuário da rede, e publicidade de produtos fez com que a moldura de ambos se afrouxasse, contaminando-se aos poucos, levando a função comercial para se impor em quanto ethos das amizades mantidas via internet, quero dizer: tornando o produto comercial promovido no Instagram a síntese ética de todo conteúdo gerado, que tem a força motriz de impelir os seus participantes a desejarem vender coisas, nem que sejam apenas coisas etéreas, como a relação de suas pessoas com os seus avatares de redes sociais.

As campanhas publicitárias da Café Gato-Mourisco estiveram até 2023 plenamente inseridas na lógica de redes sociais, e quase todas as suas vendas foram feitas nesta estrutura misturada entre chat de amigos, promoção da imagem do “produto do campo”, e eventual venda para amigos, e amigos de amigos. Agindo desta forma eu percebi que as vendas estão circunspectas a lógica da rede social de minha comunidade, e que o conceito de venda via rede social predomina sobre o produto, e sobre a forma como eu decido expor a minha vida privada para os amigos.

Redijo aqui com o estilo retrospectivo uma experiência que já “começou torta” pois desde o começo eu me indispunha a máquina da timeline. Mas foi com este tempo e experiência consumada que eu pude formar as minhas próprias ideias sobre o meu lugar na imersão das timelines. Me mantive em seu jogo (a rede também é ludus), mas em 2023, paralisei a operação ativa na rede social: senti repulsa do avatar dela ávido em mercantilizar o reflexo de minha vida pessoal e liquefazer a identidade de minha marca, acantilando-a entre muitas outras. Num primeiro momento, paralisei a marca e a mantive “respirando”, pois eu vinha desenvolvendo o site de vendas, supostamente dependente da futura alavancagem publicitária da rede social. A consequência direta disto foi que deixei o Instagram vivo até esta data de 1 de dezembro de 2023, em que previamente a ela eu o frequentei como uma criatura passiva, quase agradecida a engenharia dela por me oferecer, em um momento de descanso na poltrona, pela mini janela do celular, uma fresta mágica que me oferecia diariamente um ângulo para expiar os filhos pequenos de amigos e a celebração de suas viagens; vídeos curtos e engenhosos de comédia, de cachorros engraçados, de enchentes medonhas, caminhões atolados, vida selvagem, corpos atraentes, e muita publicidade desprezada por mim. A rede social em 2023 já tinha deixado de ser palco das minhas vendas por apatia minha para cumprir os encargos desta agência de operários voluntários, mas continuava ocupando a minha atenção projetando sobre a tela de meu celular pílulas de entretenimento que, francamente, me interessam, muito embora me fazem se sentir mentalmente enfraquecido como se eu estivesse operando um tipo de otium que é farsa, que não é ócio e tampouco negócio.

A Café Gato-Mourisco saiu da rede social contra as recomendações de todos os profissionais, inclusive daqueles empenhados em nos ajudar, como do SEBRAE. A sensação minha é de que eu fiz uma boa escolha. Não me convenci até hoje de que a relação entre exposição midiática e likes é diretamente proporcional com a alavancagem das vendas e, se for mesmo, não acredito que estas vendas compensem o custo de sacrificar tempo da vida privada e a controversa ética de promover o conceito de amizade de rede social a custas do conceito tradicional de amizade.

Acredito que ninguém que vem sugerindo o uso das redes para promoção de vendas mensura de forma eficaz o tempo de trabalho despendido com a inutilidade da procrastinação na timeline nesta mesmas redes, assim como a perda de qualidade de vida uma vez que o trabalho pela operação da rede invade o ambiente doméstico e não permite do comerciante o digno gesto de separar o ócio do negócio, quero dizer, figurativamente falando, de abrir e fechar o portão metálico da fachada de seu negócio para a rua.

Entretanto, a ruptura foi parcal. A marca Café Gato-Mourisco é uma marca de plataforma digital, de e-commerce dependente das máquinas da internet. Para vender na internet, eu me adaptarei aos recursos que ela tem para abordar diretamente os clientes. Por isto usamos WhatsApp para acessar os clientes diretamente, com mensagens personalizadas, o Inaturalist para divulgar o nosso trabalho de registro de biodiversidade da Mata Atlântica, e o Youtube para eventualmente promover conteúdo audiovisual da marca e da propriedade rural.

Enviarei e-mails, irei nos comércios oferecer o café e as cervejas, como faziam os antigos vendedores “de malinha”. Se vender é o ofício do comerciante, por que eu irei pretender fazer outra coisa ? Resposta do futuro, vinda de 20 de outubro de 2024: ainda sem Instagram ou outra timeline. As vendas de café vão bem, a saúde mental, bem também. Como experiência privada que pode ser compartilhada, eu recomendo a todas e todos o afastamento das timelines e um recomeço na internet. Quem “pular fora”, estará buscando pela forma ideal, coletiva e descentralizada da rede social: comunitária, livre, e movida, se vista como era antigamente, a avatares e blogs, como deixamos ela lá atrás, 20 anos no passado e de onde para recuperarmos a internet deveremos retornar e recomeçar.

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